sábado, 15 de dezembro de 2007

NIETZSCHE E DOSTOIÉVSKI

Do homem-deus ao super-homem

Os privilégios do homem excepcional. "[...] é permitido a todo indivíduo que tenha consciência da verdade regularizar sua vida como bem entender, de acordo com os novos princípios. Neste sentido, tudo é permitido [...] Como Deus e a imortalidade não existem, é permitido ao homem novo tornar-se um homem-deus, seja ele o único no mundo a viver assim." - F. Dostoiévski - O diálogo com o demônio (in Irmãos Karamazov, 1879)

O jovem estudante Raskolhnikov angustiava-se no seu pequeno quarto, na verdade uma gaiola desbotada que o sufocava. Ali matutava como um ser dotado de inteligência reconhecidamente superior, como a dele, estava reduzido àquela vida miserável, sem tostão e sem futuro enquanto que, naquela mesma cidade de São Petersburgo, a capital do império russo, à bem poucas quadras dali, uma velha usurária, chamada Aliona Ivanovna podia entregar-se livremente à exploração de desgraçados como ele.

Porque não eliminar aquele ser parasitário, inútil, e utilizar-se do seu dinheiro para sair daquela situação apremiante, salvando também sua mãe e sua irmã, reduzidas ao opróbrio? Foi nestas circunstâncias terríveis que o jovem estudante desenvolveu sua doutrina do "direito ao crime", na qual todo aquele que se sente além das convenções tradicionais acerca do bem e do mal, que percebe-se mais forte do que os demais homens, na verdade tem "direito a tudo", inclusive o direito de eliminar os que considera estorvantes e prejudiciais ao seu objetivo, pois o homem extraordinário deve, obediente às exigências do seu ideal, "ultrapassar certas barreiras tão longe quanto possível".

O surgimento do homem-idéia

Esta é a essência da novela que F. Dostoiévski publicou em 1867 com o título de Crime e castigo. Uns anos depois ele manifestaria ainda seu fascínio por este tipo de personagem, pelo homem-idéia, pelo ateu que vive de acordo com suas próprias regras, indiferente ao sofrimento que suas ações possam provocar. Esse personagem típico da era moderna reaparece em Os demônios, de 1870, nas roupagens do jovem aristocrata, o barin Nikolai Stavroguin. Como líder de um grupo subversivo (acredita-se que esse personagem tenha sido inspirado no terrorista Netcháiev) que conspira contra as autoridades no seu lugarejo natal. Para atingir seu fim de atacar a ordem social todos os caminhos são válidos, inclusive o premeditado e brutal assassinato de um jovem conjurado arrependido. Tempos antes, quando morava na capital, Stavroguin não hesitou em praticar pequenos roubos e em molestar sexualmente uma menina.

"Se Deus não existe....."

Pouco antes de morrer, Dostoiévski voltou novamente ao homem-idéia pois entendia-o como a encarnação maléfica das pulsões modernas; o ateísmo, o liberalismo, o socialismo e o niilismo, que ameaçavam sua Santa Rússia ortodoxa. Desta vez esse personagem ressurge nos Irmãos Karamazov, de 1879, na figura do filho mais velho de Fiodor Karamazov, Ivan. O pai, o velho Karamazov, um incorrigível libertino, um canalha completo, terminou assassinado por um servo, seu filho bastardo, chamado Smerdiakov, que confessa a Ivan que o que motivou para o crime foi um artigo que soube ter ele escrito no qual defendia a idéia de que "se Deus não existe, tudo é permitido".

Na inexistência de um Criador, de um grande ser moral, o homicida Smerdiakov não se via um degenerado, nem mesmo um abominável parricida, mas sim um daqueles homem-deus aos quais tudo é possível. Aterrorizado pela confissão do seu meio-irmão, atacado por culpas mil, Ivan mergulha numa febre nervosa em que, em meio a uma alucinação, até o demônio dialoga com ele.

O ser ideológico

Dostoiévski foi o primeiro grande nome das letras do século passado a perceber a emergência do moderno homem-idéia, dos seres ideológicos, os quais vivem, matam e morrem em função de uma causa desvinculada de injunções religiosas. Como cristão convicto, chegando por vezes ao fundamentalismo, tentou combatê-los fazendo com que, em seus romances, eles se vissem atacados por terríveis dilacerações depois de terem cometido seus crimes, mostrando-os vítimas de delírios, de convulsões, tendo sua vida transformada num inferno. O jovem Raskolhnikov entrega-se à polícia e, na prisão, dá os primeiros passos para reencontrar-se com o Cristianismo. Nikolai Stavroguin, deixando uma impressionante confissão, suicida-se, enquanto que Ivan Karamazov simplesmente enlouquece, arrasado pelas conseqüências do seu artigo ateu.

Nietzsche e o super-homem

Nietzsche, porém, um confesso admirador de Dostoiévski, quase no mesmo momento em que o grande russo baixava à sepultura, em 1881, chegou à conclusões totalmente opostas ao grande russo quando iniciou a redação de Assim falou Zaratustra. A sua concepção de super-homem parece-me extraída diretamente daquelas novelas.

Ateu militante, Nietzsche tirou as conseqüências últimas do homem-deus, não visualizando para ele nenhum grande tormento caso ele seguisse o seu ideário até o fim. Ao contrário, previu e enalteceu o homem-idéia que, em função da sua causa seria uma máquina de insensibilidade, trafegando, altaneiro, bem acima dos preceitos morais do seu tempo. Fazendo novas regras restritas a uma elite, o Übermensch teria seu comportamento a amoral regulado apenas pela sua inata vontade de domínio - Wille zur Macht - e por uma compulsiva sede de vida.

Uma nova ordem

Uma nova casta se formaria em torno de princípios e identificações comuns, uma nova Ordem dos Templários, composta por seres que não só "saibam viver mais além dos credos políticos e religiosos, senão que também hajam superado a moral." Podiam fazer o que lhes desse na telha, sem receio de qualquer tipo de punição supersticiosa. Nietzsche, antes de Freud, aboliu o pecado.

E assim foi feito. Os homens-idéia do nosso século, os nazi-fascistas, os comunistas, os liberal-imperialistas, transformaram nosso mundo numa grande arena ideológica, eliminando dela tudo aquilo que, em algum momento, lhes pareceu adverso, dissidente, parasitário, bizarro, nocivo, atrasado ou banal... a maioria deles sem esboçar um remordimento sequer. Nietzsche, em essência, nada mais fez do que transpor para a filosofia o discurso do demônio relatado por Dostoiévski, o que não lhe causou nenhum constrangimento moral, porque, afinal, se Deus não existe, também não há Satanás.

Nietzsche internado

Consta que Nietzsche foi internado depois de um estranho acidente em que se envolveu em Turim, em janeiro de 1889. Ao ver da sua janela um pobre cavalo ser brutalmente espancado pelo dono, interpôs-se entre o carroceiro e o animal, envolvendo-o com um abraço, beijando-lhe o focinho em lágrimas. Repetia, inconscientemente, a cena descrita no sonho de Raskolhnikov; quando aquele, ainda criança, enlaça e beija a carcaça ensangüentada de uma égua brutalizada por um bando de bêbados. Foi a última homenagem de Nietzsche, já demente, fez à ficção de Dostoiévski. Conduziram-no primeiro para um sanatório na Basiléia, do qual foi removido para Naumburg, aos cuidados da mãe. Em 1897, com ela morta, sua irmã Elizabeth levou-o para Weimar, onde faleceu em 25 de agosto de 1900.

EM DEFESA DA CULTURA

Friedrich Nietzsche estava se recuperando em Basiléia, na Suíça, de uma doença que o atacara na Guerra Franco-Prussiana de 1870 (ao prestar serviço de assistência aos feridos do exército alemão), quando chegou-lhe uma terrível notícia. Em março de 1871 a população de Paris havia se rebelado contra o governo derrotado. Pior, os operários estavam pondo fogo nos grandes prédios públicos e depredando as obras de arte espalhadas pela capital francesa, entre elas a bela Coluna de Vendôme. Era a Comuna de Paris que havia sido proclamada no dia 18 de março de 1871, que se tornaria um dos mais violentos levantes populares da Europa do século XIX.

Foi um choque para ele. Ainda estonteado pelas informações que recebera, refugiou-se na casa do historiador da cultura Jacob Burckhardt (1818-1897), o célebre helenista e historiador da cultura, pesquisador da Itália renascentista, que igualmente estava desconsolado. Acreditaram os dois amigos que toda a arte ocidental estava ameaçada. Séculos de beleza estavam em vias de ser totalmente devastados pelo vandalismo das massas parisienses revoltadas.

Os episódios da Comuna de Paris foram fundamentais para o acirramento das posições políticas de Nietzsche. Onde Karl Marx viu um momento de bravura popular, Nietzsche identificou o surgimento de uma nova barbárie que era preciso deter a qualquer custo. A Comuna será, pois, o ponto de partida para uma série de escritos que ele desenvolveu ao longo dos próximos vinte anos seguintes e que o colocaria ao lado dos antidemocratas, dos anti-socialistas, e contra todo e qualquer tipo de pregação que visasse a igualdade, tornando-o um apologista da distinção.

Nietzsche como Anticristo

O ataque direto que Nietzsche desencadeou contra o cristianismo radicalizou-se com o seu "O Anticristo" (Der Antichrist), mas foi inicialmente exposto na A genealogia da moral (Zur Genealogie der Moral), de 1887. Argumentou que a ética cristã era uma moral de escravos, de gente fraca e vil que havia, através do cristianismo, desvirilizado o espírito senhorial e dominante dos aristocratas. A origem desse processo, segundo Nietzsche, remontava à aos tempos da Palestina ocupada pela raça romana, raça de senhores. Os judeus, impotentes em poder livra-se deles, terminaram por aperfeiçoar a psicologia do ressentimento provocando uma inversão dos valores. Tudo aquilo que era "débil", "humilde", "medíocre", eles apresentaram como "bom", enquanto palavras tais como "nobreza', "honra", "valor", foram vistas como "mal". O resultado desse trabalho de sapador, feito por séculos de pregação cristã, foi o enfraquecimento das energias vivificantes da sociedade ocidental, especialmente das suas elites, na medida em que o "doentio moralismo ensinou o homem a envergonhar-se de todos os seus instintos".

A rebelião dos escravos

A rebelião dos escravos na moral se deu devido a sua impotência para destruir com a escravidão (ou o seu avalista, o poder romano). A nova religião - o cristianismo - tornou-se o instrumento deles para canalizar o seu ódio impotente, um "ódio que tinha a contentar-se com uma vingança imaginária". O produto desse ressentimento foi fazer com que os escravos, a "raça inferior e baixa", tornassem tudo aquilo que fosse digno e nobre em algo pecaminoso. Transformaram a prostração e a pobreza em virtude, e a abjeta covardia de dar o outro lado da face em caso de agressão, num ato sublime de perdão.

Via, portanto, o cristianismo como uma doença maligna que havia atacado o Império Romano, contribuindo para que ele sucumbisse vitimado por uma espécie de "febre das catacumbas". E, pior, "a mentalidade aristocrática foi minada até o mais profundo de si própria pela mentira da igualdade das almas; e se a crença na prerrogativa da maioria faz e fará revolução - é ao cristianismo que devemos sua difusão. São os juízos de valores cristãos que qualquer revolução vem transformar em sangue e crime. O cristianismo é uma insurreição do que rasteja contra o que tem elevação: O Evangelho dos pequenos tornado baixo".

A volta às energias aristocráticas

Portanto, os nossos conceitos de bem e de mal eram estratagemas dos derrotados, que fizeram a façanha de substituir os valores superiores da nobreza. Dessa forma retiraram dela, enternecendo-a com rogos de piedade, a seiva necessária para aplicar uma política de mão firme para conter esse moderno movimento neobárbaro, cuja carantonha havia emergido na Comuna de Paris de 1871. O socialismo não passava de um "cristianismo degenerado [...] o anarquista e o cristão vêm da mesma cepa [...]". Era preciso, pois, primeiro, expurgar de si esta moral de gente covarde. Retornar às fontes de energia aristocráticas, aplicar uma política da impiedade, onde somente o mais nobre e o mais viril fosse tomado em consideração.

"Deus está morto!" Foi sua mais célebre proclamação. Como conseqüência, os homens deveriam buscar valores que transcendessem a moral convencional divulgada pelo cristianismo; um retorno "à ordem de castas, à ordem hierárquica [...] para a conservação da sociedade, para que sejam possíveis tipos mais elevados, tipos superiores - a desigualdade dos direitos é a condição necessária para que haja direitos". Concluiu dizendo: "Quais são aqueles que mais odeio no meio da canalha dos nossos dias? A canalha socialista, os apóstolos [...] mirando o instinto, o prazer, o contentamento do trabalhador no seu pequeno mundo - que o tornam invejoso, que lhe ensinam a vingança [...] a injustiça nunca reside na desigualdade dos direitos, ela está na reivindicação de direitos iguais".

Nietzsche e a História

Nietzsche rompeu também com a relação entre a Filosofia e a História que havia sido estabelecida por Hegel, entendida esta última como uma crônica da racionalidade. Considerava que "o excesso de história" parecia "hostil e perigoso à vida", limitador da ação humana, inibindo-a. Devia-se ousar, avançar perigosamente para o ilimitado, porque a racionalização histórica levava o homem a "perder-se ou destruir seu instinto fazendo com que ele não ouse soltar o freio do 'animal divino' quando a sua inteligência vacila e o seu caminho passa por desertos. O indivíduo torna-se então timorato e hesitante e perde a confiança em si..." terminando por fazer com que "a extirpação dos instintos pela história transforma os homens em outras tantas sombras e abstrações."

Instinto contra a Razão

Nietzsche recolocou claramente o confronto outrora posto pelos românticos quando opunham os instintos - geralmente entendidos como uma manifestação da pureza e autenticidade humana - à razão, símbolo do utilitarismo cinzento e materialista.

Opunha-se, como conseqüência, à idéia de que os acontecimentos históricos ensinavam os homens a não repeti-los, defendendo a teoria do eterno retorno, de remota inspiração na filosofia pitagórica e na física estóica, que compreendia a aceitação de periódicas destruições do mundo pelo fogo e seu ressurgimento. Desta forma, não só tudo poderia acontecer novamente como tudo poderia ser tentado outra vez.

Em busca do super-homem

A idéia da necessidade da formação de uma nova elite - não contaminada pelo cristianismo e pelo liberalismo - e que ao mesmo tempo os transcendesse, acometeu Nietzsche desde muito cedo. Pode-se dizer que já pensava assim nos seus tempo do internato em Pforta. Já naquele tempo mostrou-se obcecado pela formação de uma seleta falange intelectual responsável pela transmutação de todos os valores, cuja obrigação e dever maior era a proteção de uma cultura superior ameaçada pela vulgaridade democrática.

A MORTE DE DEUS

O século XX foi o século da morte de Deus. Não só a ciência desprendeu-se definitivamente de qualquer apelo ao sobrenatural, como a maioria das constituições políticas dos novos regimes que surgiram afirmaram sua posição secular e agnóstica, separando-se das crenças. Chegou-se até ao radicalismo soviético que pronunciou-se como um Estado ateu. Se bem que a religião ainda constitui um poderoso fator de mobilização das massas e um, até agora, insubstituível apoio ético e moral, deve-se reconhecer que as elites modernas deram as costas a Deus. Mas esse gigante da religião, da teologia e da imaginação prodigiosa dos homens não morreu de uma vez só. Foi morto aos poucos ao longo do século XIX, de Laplace a Nietzsche.

Deus, uma hipótese descartável

Para Laplace, Deus é uma hipótese desnecessária. Ao enviar a Napoleão Bonaparte uma cópia do seu trabalho Méchanique céleste (A Mecânica Celeste, 5 vols., 1799-1825), o matemático Laplace, quando questionado pelo imperador sobre o papel de Deus na criação, respondeu que "Je n'avais pas besoin de cette hypothèse-là", que ele não necessitara da hipótese da existência de Deus para edificar a sua teoria do sistema solar. Com isso, com tal declaração arrogante, que fez o gosto e deliciou Napoleão, aquele expoente maior da física do Iluminismo rompia definitivamente com os elos dos seus predecessores Galileu e Newton, que ainda ligaram o Todo-Poderoso à formação do cosmo e à sua preservação.

Um Cristo humano

Se, no século XVIII, a Revolução de 1789 e a moderna ciência francesa davam início ao banimento de Deus, na Alemanha a pregação pelo afastamento do Todo-Poderoso das coisas do mundo se fez pela verve da filosofia e, pasme-se, pela própria teologia. Kant, com a sua doutrina agnóstica, que afastou as coisas da fé de qualquer provável entendimento racional (fé e razão atuam em esferas distintas, inconciliáveis), abriu caminho para que a geração seguinte de cientistas e pensadores passassem à crítica direta da religião. Sintoma disso foi a humanização crescente da figura de Jesus, como deu-se na obra de David F. Strauss, um teólogo. No seu Das Leben Jesu (A Vida de Jesus, 2 vol., 1835-36), identificou a vida de Cristo com a teoria do mito, entendendo o Evangelho como algo historicamente datado, afastando qualquer elemento sobrenatural dela. Linha que foi seguida na França pela monumental obra crítica de Ernst Renan, que a partir da Vie de Jésus (A Vida de Jesus, de 1863), que se estendeu por dezessete anos, até 1880 quando a encerrou com Marc Aurèle et la fin du monde antique (Marco Aurélio e o fim do mundo antigo), apresentando a mais completa interpretação até então concebida da história do Cristianismo na ótica do positivismo.

Deus é alienação

Para Feuerbach, Deus é alienação. O passo seguinte ao do doutor Strauss, ainda na Alemanha, foi dado em 1841 por Ludwig Feuerbach com a publicação do Das Wesen des Christentums (A essência do cristianismo), onde assegurou ser Deus uma projeção dos desejos de perfeição do homem. Vivendo em meio a infelicidade e na insegurança do sentimento de morte, os humanos idealizavam um reino perfeito nos céus, onde serão eternamente felizes e imortais. Era a alienação do homem que criara a crença no Ser Supremo, sentindo-se depois oprimido por ele. O mesmo fenômeno diria Marx (outro "matador de Deus"), engendrara a sociedade capitalista moderna, onde o Capital manipula os burgueses e oprime o proletariado.

NIETZSCHE E A DECADÊNCIA

Nietzsche, morto em 1900, nunca sentiu nenhuma simpatia pela democracia. Ao contrário, considerava-a um regime cuja presença em qualquer país já prenunciava uma irreparável decadência. Como sintoma disso, da decomposição dos valores superiores que fizeram a glória da cultura ocidental, ele apontou o verdadeiro culto, que na moderna sociedade - envenenada pelo cristianismo e pelo liberalismo dos medíocres - presta aos fracos, aos fracassados e aos insanos. A compaixão para com o que é débil e enfermo pareceu-lhe o sinal mais agudo da decomposição de uma cultura que outrora fora superior.

A vontade de poder

Foi Elizabeth Föster-Nietzsche, a irmã do pensador, tutora do espólio dele conservado no Nietzsche-Archiv em Weimar, quem organizou e deu a forma final, em 1901, um ano depois da morte do pensador, ao volume do Der Wille zur Macht, a Vontade de Poder. Nada mais era do que uma enorme coleção de aforismos, bem mais de 600, alguns alcançando a medida de uma página, que ele tentou distribuir em quatro livros, com um conjunto de escritos um tanto desconexos que ele decidira juntar num livro só. Porém o definitivo acesso de demência que o acometeu em Turim, em 1889, impediu-o disso. O livro pode perfeitamente ser considerado como o testamento político e filosófico de Nietzsche (se bem que a seleção que ela fez foi muito criticada pelos especialistas e pelos críticos e outros admiradores de Nietzsche) e igualmente a suma derradeira de tudo o que ele escrevera até então. É de alguns dos seus aforismos, especialmente o de número 389, e de alguns mais, que extraiu-se o que se segue e que ele chamou de "a corrente descendente".

A mudança do centro da gravidade

Nietzsche, como ideólogo contra-revolucionário, responsabilizava o clima geral de decadência, que ele sentiu generalizar-se na sua época, aos eventos da revolução francesa de 1789. Momento em que, segundo ele, a equivocada idéia de igualdade estabeleceu direitos comuns a todos, deixando-se a Europa levar pela "superstição da igualdade entre os homens". A era moderna, por conseguinte, nascia sob o signo de um grande equivoco, responsável único pelas enormes modificações no universo social e cultural. Para ele, a decadência do mundo moderno facilmente se verificava pelo fato do centro da gravitação ter-se deslocado da personalidade aristocrática (*) - do homem de exceção, ser extraordinário e raro - , para uma órbita plebéia, concentrada no tipo comum, ordinário, dominada pela alma do rebanho, onde reinava o medíocre, o filisteu, o fracote, o doente. Logo, a ascensão das massas, tão celebrada e enaltecida pelos progressistas de todas as tendências e pelos políticos liberais-radicais do século XIX, não passava para ele de um sintoma da profunda crise geral da civilização européia.

(*) Aristocrático aqui entendido no sentido que Aristóteles deu a esta palavra: o melhor, não necessariamente o de descendência nobre, o de sangue azul.

ESCULPINDO O INDIVÍDUO

Em busca do indivíduo

Quem seria doravante o novo evangelista, o que sairia pelo mundo afora anunciando a chegada dos novos tempos e sendo ele mesmo o novo símbolo disso? Visto que o sacerdócio se esclerosara ou se exaurira durante a grande expansão ocidental, era preciso que alguém o sucedesse. As respostas foram, como não podia deixar de ser, múltiplas e contraditórias. Pensadores, filósofos, homens de letras de todas as latitudes, lançaram-se, cada um ao seu modo e de acordo com sua veneta, a descrever esse novo "animal-político" que, segundo eles, seria o novo paradigma do homem ocidental do futuro.

O Homem do Renascimento

Jacob Burckhardt, por exemplo, o historiador da cultura, encontrou-o na figura do homem do renascimento, um tipo idealizado que emergira da complexidade da vida política peninsular e da economia mercantil avançada que a Itália possuía à época da Renascença. Para Burckhardt todas estruturas da Itália daquela época funcionaram para ressaltar e proporcionar a ascensão do indivíduo extraordinário: do tirano sem escrúpulo (como César Borgia), do aventureiro-artista (como Cellini), do condottieri (com Don Corleone), o comandante de mercenários, ou ainda o escritor satírico que sozinho, com sua pena corrosiva aterrorizava o mundo do poder (como Aretino o fez). Em suas palavras:

"Foi a Itália, a primeira a rasgar o véu e a dar sinal para o estudo objetivo do estado e de todas as coisas do mundo; mas, ao lado desta maneira de considerar os objetos, desenvolve-se o aspecto subjetivo: o homem torna-se indivíduo espiritual e tem consciência deste novo estado...[tal como] se elevara o Grego em face ao mundo bárbaro. (...)No século XIV, a Itália quase não conhece a falsa modéstia e a hipocrisia. Ninguém tem medo de ser notado, de ser e aparecer diferente do comum dos homens." (Jacob Burckhardt - A Civilização da Renascença italiana, especialmente na IV parte)

Um titã a serviço do Progresso

Para o Conde Saint-Simon (no "Do sistema industrial", 1820) e seus seguidores, particularmente para Prosper Enfantin, este novo elemento responsável por transformações radicais seria o capitalista empreendedor e inovador - o capitão da industria que com arrojo e visão destemida, descortinava, graças ao avanço da ciência e a expansão da tecnologia, um quadro de progresso para a humanidade através de obras espetaculares (tais como as de Ferdinand Lesseps, que abriu para a navegação o Canal de Suez, em 1869). O herói saint-simoniano era um titã de carne e osso, lidando com finanças, liderando forjas de aço e colossais empreendimentos espalhados por um mundo ainda a ser conquistado, ao mesmo tempo em que, cartesianamente, domava a natureza ao seu redor. Detestando o parasitismo da aristocracia e do clero, ele também deveria "retificar as linhas fronteiriças do bem e do mal". Esse moderno Messias do Progresso, do "iniciador científico", do implantador da "sociedade industrial", não leva de maneira uma vida imaginativa ou sentimental, senão que "uma sucessão de experiências". Para tanto ele devia seguir algumas regras que o habilitem a levar uma vida produtiva e criativa:


Regras do saint-simoniano

1º - Levar, enquanto ainda dotado de vigor, uma vida a mais original e ativa possível

2º - Inteirar-se cuidadosamente de todas as teorias e de todas as práticas

3º - Recorrer a todas as classes sociais e colocar-se pessoalmente em cada uma delas, mesmo as mais diferentes, chegando inclusive a criar relações que não existiram antes

4º - Empregar a velhice em resumir as informações coletadas sobre os efeitos que resultaram das suas ações, para estabelecer novos princípios sobre a base deles


O Niilista revolucionário

Destoando desses modelos, que afinal enalteciam as Artes e o Progresso, um novo tipo de indivíduo começou a ser esboçado pela intelligentsia russa na século XIX. O herói niilista, o raznochintsy, o tipo fora da classificação social conhecida, que elegia, inspirado na filosofia do romantismo alemão e no socialismo francês, a entrega total a uma causa como a razão do seu destino. Ele desprezava os valores em que vivia, elegendo o nada (niil) como ponto de afirmação e de partida.

Origem literária

Literariamente ele tornou-se um personagem fascinante desde que apareceu na pele de Bázarov, na novela "Pais e Filhos" de Ivan Turguéniev, em 1862, e principal responsável pela difusão da palavra "niilista". Dostoievski, a seguir, apresentou-o como um radical que colocava-se acima da lei e de tudo o mais, acreditando-se superior e com "direito ao crime", como o seu personagem Raskhólnikov, no celebrado romance "Crime e Castigo", de 1867. Um lobo solitário que rondava a sociedade aristocrática ou burguesa, imaginado mil maneiras de levá-la a destruição, sempre pronto a apresentar planos de regeneração social através da violência individual ou revolucionária. A arte para ele, assim como estava, manifestação do supérfluo, só servia às classes cultas. Era preciso engajá-la, fazer dela um instrumento de emancipação dos povos agrilhoados. Só assim ela teria uma razão de ser.

O niilista, um perdido

Acredita-se que a forma mais extremada desses niilistas foi assumida pelo terrorista Sérgio Netcháiev (um seguidor de Bakunin, que, entusiasmado disse dele "São magníficos esse jovens fanáticos, crentes sem deus, heróis sem frases"). Ele, juntamente com Tkachév, expôs no "Programa das ações Revolucionárias", de 1869, uma verdadeira cartilha do terrorista, o ideal do comportamento niilista.


O Catecismo do Revolucionário

1 - O revolucionário é um homem perdido. Não tem interesses próprios, nem causas próprias, nem sentimentos, nem hábitos, nem propriedades; não tem sequer um nome. Tudo nele está absorvido por um único e exclusivo interesse, por um só pensamento, por uma só paixão: a revolução.

2 - No mais profundo do seu ser, não só de palavra, mas de fato, ele rompeu todo e qualquer laço com o ordenamento civil, com todo o mundo culto e todas as leis, as convenções, as condições geralmente aceitas, e com a ética deste mundo. Será por isso seu implacável inimigo, e se continua vivendo nele será somente para destruí-lo mais eficazmente.

3 - O revolucionário deprecia todo o doutrinarismo: renunciou a ciência do mundo, deixando-a para a próxima geração. Ele só conhece uma ciência: a da destruição.

4 - Despreza a opinião pública. Despreza e odeia a atual ética social em todas as suas exigências e manifestações. Para ele é moral tudo o que permite o triunfo da revolução, e imoral tudo o que a obstaculizar.

5 - O revolucionário é um homem perdido. Implacável com o estado e, em geral, com toda a sociedade privilegiada e culta, de quem ele não deve esperar piedade nenhuma... Cada dia deve estar disposta a morte. Deve estar disposto a suportar a tortura

6 - Severo consigo mesmo, deve ser severo com os demais. Todo os sentimentos ternos e abrandados sentimentos de parentesco, de amizade, de amor, de agradecimento e inclusive de honra, devem ser sufocados nele por uma única e fria paixão pela causa revolucionária.

7 - A natureza de um autêntico revolucionário excluiu todo o romantismo, todo sentimentalismo, todo entusiasmo e toda a sedução.. Exclui também o ódio e a vingança pessoal. A paixão revolucionária convertida nele em paixão de cada dia, de cada minuto, deve ser seguida pelo cálculo frio. (...) Liguemo-nos com o mundo livre dos bandidos, o único autenticamente revolucionário na Rússia.

8 - Reagrupar este mundo numa força invencível; eis aqui a nossa organização, nossa conspiração, nossa tarefa.

O super-homem de Nietzsche

Chega-se por fim a idéia do super-homem (Übermensch) de Nietzsche, que também constituiu-se numa formidável tentativa intelectual do idealismo e da metafísica alemã (já presente no "Fausto" de Goethe, e no "Ich!" de Fichte) em dar sua contribuição para a construção desse novo indivíduo que, para o pensador, certamente emergiria no vindouro. Ele é pois um amalgama e também uma síntese das idealizações anteriores. Porém o super-homem nietzscheano não esboça nenhuma ação para prover as multidões, nem vem para libertá-las de regimes injustos e opressores. É um egocêntrico, que, ao contrário do herói niilista, irá tentar opor-se às multidões, às massas. Ele se identifica com a força e com a soberba e não com o desvalimento e a tibiez. Com o punho duro, fechado, que brada uma exigência ou uma ameaça, e não com a mão trêmula e arqueada do pedinte. Ele é corpóreo, é sensual, ama a vida e fascina-se pelo domínio, de si e o que exerce sobre os outros. Quer ser grande, quer ser reconhecido, pois "o mundo gira em torno dos inventores de valores novos: gira invisivelmente; mas em torno do mundo giram o povo e a glória; assim anda o mundo".

As novas tábuas do super-homem

Despreza a religião cristã, com seu Deus morto, cuja ética ele considerou uma espiritualização da antiga casta dos sacerdotes que se juntou à fraqueza, à pobreza e à covardia da gente comum. O Cristianismo é uma teologia de ressentidos, uma fé de enfermos e de desgraçados. Liberto das cangas pesadas e inibidoras da moralidade cristã e burguesa em que foi educado e formado, o super-homem, seguramente, irá forjar "com companheiros que saibam afiar a sua foice" uma nova moralidade. Habitando "a casa da montanha" ou a floresta, incessantemente superando a si mesmo, altivo como a águia e astuto como a serpente que acompanham Zaratustra, o seu anunciador, ele, com seus colaboradores, chamados de "destruidores e desprezadores do bem e do mal", inscreverá "valores novos ou tábuas novas". Ele é o devir a ser, ele é o futuro.

As características do super-homem

Como se reconhece
Pela personalidade extraordinária e pelo caráter forte, inquebrantável. Não pelo nascimento nem pela educação, mas pela inequívoca presença e fascínio que exerce sobre os demais. Por sua olímpica arrogância.

Onde ele se encontra
No futuro, no devir a ser, ele trará as novas tábuas não mais presas aos conceitos do bem e do mal

Qual a sua morada
A casa da montanha, os altos picos, acompanhado pela águia e pela serpente, bem distante da moralidade convencional e do cristianismo

Quais as leis que obedece
As que ele mesmo faz. O super-homem é o legislador de si mesmo e o autor das suas próprias e exclusivas regras

O que ele ama
O seu corpo, do qual não tem vergonha. Ele se exibe, se mostra, aceita a sensualidade como natural e não tem a mínima idéia do que é ou representa o pecado. A vida é proliferação e exuberância, é domínio, amor e crueldade. Em seguida a isso, ama os valentes, os corajosos, os que dizem sim a vida, os audazes que não se prendem aos limites e não temem o desconhecido.

Quais são seus inimigos
Os sacerdotes, os pregadores da morte, seres vingativos que detestam a vida e veneram o além. O cristianismo com sua moral de escravos, de gente impotente e ressentida com a vida.

O que ele detesta
A canalha, o populacho, porque envenena tudo o que toca. O seu sentimentalismo mela tudo, tem bocarra grotesca e sede insaciável. Chega a duvidar que a vida tenha a necessidade deles. Não tem consolo para o corcunda, para o doente, para o fraco e covarde. Quer que eles desapareçam, que sumam.

O que mais odeia
A idéia de igualdade defendida pelos democratas e pelos socialistas. O injusto é tentar fazer iguais os desiguais.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

EM BUSCA DO SUPER-HOMEM

A decadência da sociedade ocidental

Nietzsche tinha a firme convicção de que a sociedade européia em que vivia estava atacada por profundos males, cujas sinais de decadência mais evidentes revelavam-se: a) pela expansão do liberalismo (visto como doutrina de uma burguesia senil e covarde, sem energia para reprimir a emergência da nova barbárie); b) pela crescente demanda pela democracia feita por sindicatos e pelo populacho em geral, ao qual se associavam movimentos feministas e outros libertários ("porque, bem sabes, chegou a hora da grande, pérfida, longa, lenta rebelião da plebe e dos escravos; que cresce e continua a crescer"- Zaratustra, IV parte) ; c) pelo crescente império do mau gosto, no teatro, na ópera, na música, exposto pela difusão e divulgação da arte popular ("É que, hoje, os pequenos homens do povinho tornaram-se os senhores...isso, agora, quer tornar-se senhor de todo o destino humano. Oh, nojo! Nojo! Nojo!"- Zaratustra - IV parte, 3)

Origens mais remotas da decadência

Deve-se ao cristianismo, segundo Nietzsche, a origem mais remota da crescente debilitação da elite européia, na medida em que aquela religião retirou dela, da antiga casta nobre, a capacidade de retaliação. Esta era necessária para afirmá-la como poder, mas devido à pregação da tolerância, e pelo exercício inútil da piedade, da compaixão e do perdão, a velha estirpe se enfraqueceu, senilizou-se.

O cristianismo é uma religião de escravos que louvava a pobreza, a humildade (dos pobres é o Reino dos Céus) e a covardia (dar a outra face), opondo-se à ética dos fortes, dos senhores romanos. O ódio paulino ao sexo nada mais era do que um disfarce do ódio que o cristianismo devota à vida, devido ao sentimento de inferioridade intrínseca daqueles que se ressentiam contra os seus dominadores. A influência dos evangelistas envenenou Roma, contribuindo para a sua decadência ao fazer com que o senhores do império perdessem o elã e a crueldade que era preciso para manter coeso o seu domínio do mundo. Os conceitos de bem e do mal estão superados porque Deus morreu, logo era preciso encarar a realidade e concentrar a atenção na elaboração de uma outra ética que se baseasse apenas na força do caráter e da personalidade do indivíduo.

O que fazer?

A expectativa de Nietzsche, a única esperança que ele vislumbrou para evitar a bancarrota da grande cultura ocidental, ameaçada pelo mau gosto do populacho e pela possível insurreição das massas (como correra com a Comuna de Paris em 1871), era aguardar a chegada do super-homem. A ele, a este novo messias, estaria reservada a tarefa hercúlea de enquadrar a plebe, reprimindo seus anseios político e sua desqualificação estética. O super-homem não existia na época em que Nietzsche viveu, mas profetizou sua chegada para o futuro. Ele é quem executaria a transmutação dos valores, fazendo com que "Bom" e "Justo" voltassem a ser associado a "Nobre" e "Digno", e não mais a "Pobre" ou "Humilde", como ocorria na moral cristã.

Quem é o super-homem?

Este poderoso e tão popular personagem da imaginação nietzscheana derivou do romantismo alemão (com sua incontida celebração do gênio, do indivíduo dotado de virtudes incomuns) mas também da secularização da mitologia, encarnada num Prometeu redivivo, já assinalado por Goethe. O gênio é uma força irracional, um fenômeno da natureza, quase divino e absolutamente extraordinário: assim o enalteceram Goethe, Fichte e Hegel (que afinal conviveram com Napoleão Bonaparte). Ele encontrava-se bem acima dos demais mortais, sendo característico dele usar os outros seres humanos apenas como degrau para sua ascensão. É um forte, um aristocrata (não no sentido de sangue, mas de personalidade), um colossal egocêntrico que faz suas próprias leis e regras e que não segue as da manada. Mas o super-homem pode ser visto também como o resultado último da uma concepção evolucionista. Se, no passado remoto, como ensinou Darwin, fomos precedidos pelos símio, sendo o homem do presente apenas uma ponte, o futuro seria irremediavelmente dominado pelo super-homem.

No passado remoto
O símio (forma primitiva de existência)

No presente
O homem (ponte para o devir)

No futuro
O super-homem (personalidade dominante do futuro)

Aproximando-se de Maquiavel

"Amo os valentes; mas não basta ser espadachim - deve-se saber, também, contra quem sacar a espada!" - Zaratustra

Nietzsche, com sua admiração pelas personalidades fortes, determinadas a tudo, alinhou-se a Maquiavel. Ambos manifestaram sua preferência pelos homens titânicos que povoaram a época renascentistas. Audazes, egoístas, incorrendo no crime e na mentira, artistas do embuste e do engano, vivendo perigosamente entre a vida e a morte, aqueles tiranos, tais como Cósimo de Medici (1519-1575) ou do seu pai Giovanni de la Bande Nere (1498-1526), que eram capazes de, ao mesmo tempo que cometiam as piores barbaridades, proteger, estimular e patrocinar, a mais esplendorosa manifestação artística que a Europa conheceu - a cultura do Renascimento. Paralelo a eles, compartilhando o mesmo cenário dos príncipes mecenas e condotieros italianos, celebrou o artista-tirano, o aventureiro a la Benvenuto Cellini (1500-1571), que somava sua habilidade com a espada e o lidar com venenos com o mais refinado bom gosto artístico. Logo, uma das conclusões que Nietzsche chegou, ao interessar-se por aquelas personalidades, é de que em nome da preservação e do deleite da arte superior, perene, magnífica, qualquer sentimento ético ou humanitário passava a ser desprezível, senão mesquinho. As atribulações daqueles príncipes, com os quais simpatizou, lhe chegaram ao conhecimento por meio da cultivada amizade que ele estabeleceu com o Jacob Burckhardt, um suíço, grande historiador da cultura grega e renascentista, com quem ele privou na cidade de Basiléia a partir de 1870, e que escrevera um ensaio clássico sobre o tema (A Civilização da Renascença italiana, 1860).

Influência de Darwin

O darwinismo, difundido largamente após a publicação em 1859 da "Origem das Espécies", ensinou que a Natureza é amoral. A sobrevivência dos seres existentes não é determinada por critério éticos, nem pelas regras do Bem e do Mal. A seleção dos mais aptos não se faz obedecendo aos princípios morais, mas sim pelo desenvolvimento da capacidade de sobrevivência e de adaptação. As conseqüências morais lógicas extraídas dessa visão naturalista da existência, aplicadas à sociedade em geral, conduzem à eugenia de Francis Galton, não podendo ser outras senão em ter que concordar que somente os mais capazes têm direito à vida. Aos fracos cabe um destino inglório: a morte ou a submissão! - "o fraco não tem direito à vida". Nietzsche de certa forma, ainda que com desavenças, elaborou a metafísica do darwinismo, fazendo da sua filosofia uma espiritualização da teoria da seleção das espécies e da vitória do mais capaz, apresentada pelo grande naturalista.

Influência de Dostoiévski

Nietzsche impressionou-se com a literatura de Dostoiévski, o criador do personagem niilista radical que, por sua vez, era inspirado no raznochintsy, o solitário homem-idéia, um produto sócio-político do Movimento Narodniki, o populismo russo do século XIX. Personagem vivamente extraído da realidade russa do tempo do czar, é um ateu e materialista que vive em função de uma causa, a quem ele se dá integralmente, ao estilo de Netcháiev. Por ela, pela causa, dedica a sua vida, fazendo ele mesmo suas regras: "Se Deus não existe, tudo é permitido"(Ivan Karamazov). Nietzsche, ao contrário de Dostoievski, não lamentou o surgimento desse novo "animal-político", o niilista que vaga pelo mundo como um lobo solitário a serviço de algo que ele mesmo elegeu como razão de ser da sua existência. Exalta-o como um exemplo do super-homem que não se detém perante qualquer prurido moral na concretização dos seus objetivos, sejam eles quais forem. Ele, esse personagem fantástico, assume na totalidade as implacáveis conseqüências de um mundo sem Deus, tirando disso as devidas conclusões morais. Defendendo a emergência de uma nova ética, baseada nas virtudes do homem superior, ele vive completamente afastado das massas, sempre aferrado à sua tarefa de impor uma nova atitude perante à vida.

A projeção de Nietzsche

Politicamente, ele tanto foi acolhido por anarquistas, que na linha de Max Stirner (1806-56), que celebravam através da leitura dele o individuo-absoluto (o homem solitário, quase uma fera, que enfrenta a sociedade burguesa a quem vota desprezo e ódio), como também pelos nazi-fascistas, com a identificação com a teoria de uma elite de homens fortes dotados de vontade de domínio (uma nova raça superior liderada pela besta fera ariana, dominadora e implacável). Seja como for, em se tratando de política, são os extremistas ideológicos quem cultuam Nietzsche, não os democratas. O mesmo evidentemente não ocorre com os literatos e filósofos, tais como Heinrich e Thomas Mann, ou, mais recentemente, com Michel Foucault, que, independentemente das inclinações contra-revolucionária de Nietzsche, reconheceram nele uma fonte inesgotável de percepções originais, estéticas e existenciais, todas elas relevantes, e que muito contribuíram para a compreensão do homem moderno e para os fenômenos artísticos e políticos que acometeram o século XX.

Nietzsche e os quadrinhos

Suprema ironia deu-se com a idéia do super-homem - tornada popular com a ascensão de Hitler e dos nazistas ao poder na Alemanha dos anos trinta -pois terminou por cair no agrado popular (para bem possível escândalo de Nietzsche se vivo fosse) Nos Estados Unidos, de imediato, surgiram uma série de comics, de heróis em quadrinhos dotados de poderes extraordinários. O mundo então foi inundado por uma enxurrada de curtas historias ilustradas que fizeram por difundir e, claro, adulterar completamente o sentido original do super-homem imaginado por Nietzsche. De certa forma, ocorreu uma incrível metamorfose que fez com que uma ideologia elitista e exclusivista como a que Nietzsche defendeu, acabasse, depois de apropriada pela indústria da cultura de massas, por gerar um ícone cultuado pelas multidões de jovens anônimos do nosso século. No final das contas as massas fizeram por canibalizar o super-homem.

Confluindo para o super-homem

"Eu assento minhas coisas no Nada" ("Ich hab, mein Sach' auf Nichts gestellt) - Max Stirner - O Eu e o seu próprio, 1845

Podemos, em síntese, identificar quatro origens na configuração nietzscheana do super-homem

Inspiração - Fontes

Mitológica (grega)
Prometeu, o titã que ousou desafiar os deuses Olímpicos, passando a viver de acordo com seus princípios

Renascentista (italiano)
O príncipe maquiavélico, o tirano que utiliza-se operacionalmente dos valores morais em função do poder

Romântica (alemã)
O gênio, concepção do romantismo alemão, a grande personalidade que se confronta com seu época e vem anunciar um novo tempo, uma nova época, indiferente aos clamores contrários que provoca

Populista (russo)
O niilista russo, o raznochintsy, aquele que estava fora do sistema de castas da Rússia Czarista e que, revoltado, empenhava-se com fervor em torno da causa.

AS INFLUÊNCIAS

Arthur Schopenhauer (1788-1860) filósofo do pessimismo, autor do Mundo como Vontade e Representação, edição de 1844, que trouxe ao cenário filosófico a importância da Vontade (Wille)

Jacob Burckhardt (1818-1897) historiador suíço, pioneiro da história da cultura, autor de "A Civilização da Renascença italiana", de 1860, que passou a Nietzsche a idéia da construção histórica da individualidade.

Fédor Dostoievski (1821-1881) novelista russo, uma das maiores influências literárias de Nietzsche, especialmente pelo contraditório fascínio que o romancista revelou pelo homem-idéia, pelo niilista, o homem sem Deus da era moderna.

Richard Wagner (1813-1883) compositor alemão, autor do mítico "Anel dos Nibelungos" (1853-1874), transposição para a música da saga dos germanos. Nietzsche viu nele um novo Dionísio, um deus da música.

TRAÇOS BIOGRÁFICOS

"...Sim já sei de onde venho...tudo o que tocam as minhas mãos se torna luz e o que lanço não é mais do que carvão. Certamente, sou uma chama!" - Nietzsche, 1888

Vida de cigano

Quem o conheceu naquela época, entre 1880-90, não deixou de se comover ao vê-lo. Friedrich Nietzsche, devastado por uma miopia de 15 graus, andava como que às cegas, tateando com as mãos ou com a bengala o perigoso espaço embaçado que imaginava na sua frente. Desde que o aposentaram precocemente aos 34 anos da Universidade de Basiléia na Suíça, deu-se a ter uma vida de pobre cigano, arrastando-se de pensão em pensão, de quarto em quarto, por cidades italianas (Gênova, Veneza, Sorrento, Turim), francesas, (Nice) ou recantos suíços (como Sils-Maria). Se bem que nascido em Röcken, em 15 de outubro de 1844, no coração da Saxônia, pode-se dizer que Nietzsche passou seu tempo de adulto mais fora do que dentro da Alemanha.

O pai, um pastor, parece que talentoso, um monarquista convicto e preceptor de princesas, batizou-o com o nome dos reis prussianos - Frederico. Deu-lhe o nome e infelizmente também lhe legou uma estranhíssima doença. Era isso que o fazia agora, homem feito, ver-se jogado na cama por dias a fio torturado por pavorosas enxaquecas, seguidas de eternas indisposições estomacais e tonturas de toda ordem.

Uma só escassa paixão

Foi este estado lastimoso que fez com que uma sua conhecida Malwida von Meysenburg, uma dedicada senhora casamenteira, não parasse de arranjar-lhe encontros com umas moças que passavam por seu salão. Era uma luta arrancar aquele misógino do fundo da pensão em que estivesse para que fosse dar uma passeio com alguma daquelas prometidas.

Por uma pelo menos ele se interessou - dizem que chegando à paixão - uma jovem russa que vivia no Ocidente chamada pelo exótico nome de Lou Salomé e por quem ele, inutilmente, se entusiasmou por uns oito meses no ano de 1882. Ela, mais tarde, casou-se com o poeta Rainer Maria Rilke, e também freqüentou Freud, de quem se tornou discípula.

Wagner decepcionou Nietzsche

Seu melhor momento de relacionamento foi com Richard Wagner e com a mulher dele, Cosima, quando freqüentou assiduamente, em peregrinações de fim de semana, a mansão do compositor em Tribschen, na Suíça. Amizade que começou a desmoronar em 1878 quando farejou no grande mestre sinais de concessões ao gosto popular e acenos indiscretos ao cristianismo, religião a qual ele devotou um ódio crescente. Ao Cristianismo e à idéia da Igualdade!

Wagner, um egocêntrico assumido, queria que o iniciante Nietzsche (era trinta anos mais jovem que o compositor) fosse uma espécie de arauto das suas óperas e não um intelectual independente que "caminhasse junto a ele". Nietzsche, anos depois, disse que os dois, ele e Wagner, eram dois barcos navegando na mesma direção, encontrando-se aqui e ali, mas com rotas diferentes, e que se não se davam bem entre as águas, seguramente o fariam quando se encontrassem num outro lugar. Nos céus!

Um notável escritor

Durante mais de dez anos aquele esquisito professor alemão, que chamava a atenção das pessoas por andar com um bigodão de cossaco, trancado com seus livros e papéis em aposentos soturnos, dedicou-se a produzir candentes escritos contra tudo o que era estabelecido e até mesmo o que consideravam não convencional (como o socialismo e o feminismo). Poucos deixam de ler uma página de Nietzsche sem uma forte impressão - a favor ou contra. E que escrita! Ninguém como ele empunhara o alemão assim, a marteladas.

Um pensador impressionista

Nada de sistema ou de portentosos tratados, nenhum pedantismo caracteriza os escritos de Nietzsche. Ao contrário, redigiu versos, aforismos, uma prosa de parágrafos curtos, frases secas, certeiras, com extraordinária carga emocional. Realizou uma façanha - era o primeiro pensador moderno da Alemanha a abominar a paixão nacional pelo texto obscuro (religiosamente respeitada pelos intelectuais alemães). Viu-se na pele de um novo profeta: um Zaratustra, o velho mago iraniano, renascido bem no meio da Europa Ocidental. Alguém que vinha anunciar a todos que uma Nova Ordem adviria. E nela, malgrado os crentes, Deus não mais existia! O próprio homem como conhecíamos, desapareceria.

O super-homem

Se foramos em algum dia remoto, como Charles Darwin sugerira, um macaco, o homem de agora era uma ponte, uma passagem para um outro devir a ser: o do Übermensh, o super-homem. Liberto dos entraves do bem e do mal, este novo ser, um titã, um colosso egocêntrico, viria para a conquista futura do mundo. Uma nova raça de homens, recuperando e restaurando as autênticas e primitivas pulsões (bárbaras, violentas, extremadas) sufocadas pela moral convencional e pela religião, levaria tudo de roldão.

Loucura e morte

Paradoxalmente, disse num certo momento, que não queria discípulos. Era serio? Teve-os aos magotes. Endoidou de vez em Turim, em janeiro de 1889, quando acharam-no aos prantos abraçado num cavalo espancado. Durante os dez anos restantes afundou-se numa densa névoa. Morreu na pequena Weimar, a capital cultural da Alemanha, no dia 25 de agosto de 1900. A sua irmã mais nova Elizabeth recolhera-o para lá em 1897, entendendo de que somente o sítio de Goethe era suficientemente ilustre para acolher em seus últimos dias o famoso e infeliz irmão louco.

ESPECIAL NIETZSCHE

NIETZSCHE: TRAÇOS BIOGRÁFICOS - Acompanhe algumas importantes passagens da vida do filósofo: seu nascimento, em Röken; sua única paixão, Lou Salomé; a relação com Wagner e a esposa, Cosima; a profetizção do Übermensh (super-homem); a loucura em Turim; e a morte, assistido pela irmã mais nova, Elisabeth, em Weimar.

O PENSAMENTO DE NIETZSCHE - Os episódios da Comuna de Paris foram fundamentais para o acirramento das posições políticas de Nietzsche, que o colocaram ao lado dos antidemocratas, dos anti-socialistas, e contra todo e qualquer tipo de pregação que visasse a igualdade, tornando-o um apologista da distinção.

AS INFLUÊNCIAS DE NIETZSCHE - Conheça as personalidades que influenciaram o pensamento de Nietzsche e saiba o que cada um deles contribuiu na vida do filósofo.
DOSTOIEVSKI E NIETZSCHE - Nietzsche foi grande admirador de Dostoievski, autor que inspirou-o com seu homem-idéia, que vive de acordo com as próprias regras, indiferente ao sofrimento que suas ações possam provocar.

EM BUSCA DO SUPER-HOMEM - Nietzsche profetizou para um futuro adiante à sua vida a chegada de um super-homem, um messias que colocasse a plebe em seu devido lugar e restabelecesse a associação de "bom" e "justo" com "nobre" e "digno", substituindo assim os tortos valores do cristianismo.

NIETZSCHE FILÓSOFO - A doutrina nietzschiana é anti-intelectualista por excelência. Ao acentuar o ato, e não a reflexão ou a meditação, privilegia o "experimental". Se há indecisão entre Apolo e Dionísio, entre a razão e a emoção, ele recomenda seguir o deus das bacantes.

NIETZSCHE: ESCULPINDO O INDIVÍDUO - A tentativa de prever os novos tempos da humanidade rendeu diversas e contraditórias repostas de pensadores, filósofos e homens de letras. Qual seria o novo paradigma do homem ocidental do futuro? Para Nietzsche, certamente seria o super-homem, um egocêntrico que se oporia às multidões.

NIETZSCHE, A CONSTRUÇÃO DO ZARATUSTRA - Que motivo levou um ateu assumido como Nietzsche a fazer de um carismático líder religioso do passado, Zaratustra, o veículo da sua mensagem? Esse ato mostra que o pensador alemão, apesar de não ser mais cristão racional e intelectualmente, carregava os traços de um filho de pastor.

NIETZSCHE E A DECADÊNCIA - Para Nietzsche, a democracia representava um regime decadente. Sua misericórdia para com os fracos e doentes era um sinal de decomposição dos valores superiores, que iam-se perdendo à medida que o poder era transferido para as massas.

NIETZSCHE E O ASCETA - Nem mesmo a vida do homem santo, tão admirada e enaltecida pelo cristianismo, escapou do arguto e contundente olhar de Nietzsche. O filósofo classificou a repúdia dos ascetas aos prazeres da vida como um exemplo da forma extrema da orgulhosa vontade de poder.

A MORTE DE DEUS - Laplace, Kant, Strauss, Pasteur, Darwin e Nietzsche estão entre os nomes daqueles que, de uma forma ou de outra, contribuíram no século XIX para o rompimento do homem com o sobrenatural, desvendando os mistérios que cercavam a humanidade. O castigo e a redenção dos homens não vinha de Deus, mas de nós mesmos.

AS MELHORES BIOGRAFIAS

"Vida de Frederico Nietzsche" ou somente "Nietzsche", do francês Daniel Halévy, cuja primeira publicação é de 1909, tendo uma reedição ampliada em 1944. Na edição de Lisboa tem 409 págs.

"Nietzsche" de Ivo Frenzel, é uma das excelentes edições de livro de bolso, com gravuras e fotografias dos principias locais onde o poeta e pensador viveu. Edição alemã de 1966.

"Friedrich Nietzsche" (Friedrich Nietzsche. Biographie) de Curt Paul Janz, em 4 volumes, surgida em Viena em 1978. Trata-se de uma das mais recentes, extensa e detalhada, biografia do pensador. Divide-se em "Infância e juventude" (vol. I); "Os dez anos de Basiléia" (vol. II); "Os dez anos como filósofo errante"(vol. III); "Os anos de naufrágio"(vol 4). Só existe uma tradução em espanhol da Alianza de Madri, e provavelmente é a mais alentada de todas, tendo mais de mil páginas.

"Nietzsche: el aguila angustiada. Una biografia"(Der ängstliche Adler. Friedrich Nietzsche Leben, Munique, 1989), de Werner Ross, tradução espanhola da Paidós, de 1994. Trata-se de uma complementação dos dois tomos escritos por Heidegger, enfocando a vida mesclada à obra do pensador. É também monumental, com 865 páginas, e extremamente agradável de se ler.

O PROGRAMA DO SUPER-HOMEM

O grande programa do super-homem, portanto, estava pronto. Tratava-se de uma abrangente reforma que procurava dar um senso de propósito a uma existência na terra abandonada pela deidade. Os interesses de poucos deverão ter proeminência sobre todos os demais, a força do espírito sobrepujará a fraqueza, a saúde do espírito sucederá qualquer tibiez, a guerra dos espíritos substituirá a paz. Como conseqüência lógica disso, as necessidades dos indivíduos excepcionais terão sempre precedência contra o espírito nivelador estabelecido pela gravitação imposta pela mediocridade. O mundo filisteu, dominado pela pasmaceira da vida rotineira deverá dar lugar à audácia, à dança, e à destreza intelectual. A de viver-se perigosamente.

A revolta contra o tédio

A pregação de Zaratustra foi entendida por George Steiner como uma desconformidade, entre tantas outras, com a vida tediosa da sociedade burguesa fin de siècle, onde o mundo aventureiro e belicoso do aristocracia cedia espaço ao utilitarismo frio, prático e calculista, do homem burguês ocidental. Uma época absolutamente banal na qual a sociedade científico-positivista via-se crescentemente dominada pelo espírito liberal-igualitário, que impedia o afloramento da individualidade singular, a emergência do grande homem, da personalidade fora de série, que o profeta vinha pressagiar. Um estado de espírito que encontrou sua melhor expressão no dito do poeta Théophile Gautier: "Prefiro a barbárie ao tédio!"

A vontade de poder

Se Schopenhauer, um pessimista assumido, desenvolveu a teoria de que a vida não tinha nenhum sentido racional e que todos nós éramos apenas expressões da vontade, uma vontade de viver instintiva, animal, cósmica, que estava entranhada na natureza e em nós, Nietzsche irá atribuir à vontade uma outra dimensão. Influenciado pelas teses de Charles Darwin (1809-1882), como a luta pela vida e a sobrevivência do mais apto, ele considerou a vontade (Wille)como uma força positiva sobre o Homem, uma energia que mobiliza-o, fazendo-o ultrapassar os obstáculos e vencer os desafios que se lhe antepõem. Daí reduzir quase tudo na existência à luta pela vontade de poder (Wille zur Macht).

A necessidade vital que o homem tem de sempre lançar-se compulsivamente sobre os demais objetos da natureza e sobre o resto da sociedade visando o seu domínio, estaria assentada na antiga premissa de que "cada um de nós deseja, no possível, ser o senhor de todos os homens, e preferivelmente deus". Esta vontade de poder é vital e amoral, independe de critérios éticos, é uma espécie de pulsão incontrolável que faz com que o homem enfrente todas as vicissitudes para saciá-la (concepção que foi recentemente reaproveitada por Michel Foucault na sua "microfísica poder", e com a visão de que a sociedade é um conflito permanente entre poderes, que transcendem a simples luta política partidária e ideológica, englobando as políticas clínicas, da saúde pública, dos sanatórios e das prisões).

A política de domínio

Isto conduziu a que Nietzsche aceitasse e enaltecesse qualquer política de domínio, acreditando-a inevitável. No Além do bem e do mal (Jenseits von Gut und Böse), concluída em 1886, e que é de certa forma, a complementação final em prosa do Zaratustra, afirma que "a vida mesma é essencialmente apropriação, ofensa, sujeição do estranho e mais fraco, opressão, dureza, imposição de formas próprias, incorporação e, no mínimo e mais comedido, exploração".

A vontade dos mais fortes

Evidentemente que esta manifestação de vontade de poder, em sua plenitude, só pode ser exercida pelos mais fortes. Aos fracos cabe a obediência respeitosa ou aceitar o extermínio silencioso. Esta figura vitoriosa, altaneira, que impõe sua vontade sobre tudo e todos, não pode ser constrangida pela moral comum dos homens vulgares, dos preceitos seguidos pelas maiorias, ou pelo imperativo categórico kantiano, que desejava tornar toda e qualquer ação numa lei universal.

O mais forte faz suas próprias regras, estabelece para si qual é a melhor conduta e não espera de forma nenhuma que os outros o sigam (é o "façam o que eu digo e não o que eu faço" de Napoleão). Ele não deve estranhar se o consideram duro e insensível, quiçá até desumano, pois estes são os atributos do super-homem, que trafega soberbo no seu Olimpo particular e só tem gestos generosos para com os demais na medida em que isto o enaltece ou satisfaz.

Despreza "o covarde, o medroso, o mesquinho o que pensa na estreita utilidade; assim como o desconfiado, com seu olhar obstruído, o que rebaixa a si mesmo, a espécie canina de homem, que se deixa maltratar, o adulador que mendiga, e sobretudo o mentiroso - é crença básica de todos os aristocratas que o povo comum é mentiroso". Ao homem comum, ao fraco em geral, só lhe resta a serventia de ser um degrau de apoio sobre o qual a figura de escol deverá calcar em sua ascensão os cimos mais elevados de uma existência superior.

Uma contra-utopia

Nietzsche de certa forma esboçou, com sua prosa impressionista, o que poderíamos considerar como uma contra-utopia ou uma utopia direitista. Na sociedade futura que imaginou, a harmonia seria estabelecida apenas entre os que se consideravam iguais - a nova nobreza formada pelos super-homens - que regeriam uma comunidade rigidamente hierarquizada, despida da moral comum, dominada pela "besta loura" que exerceria sua autoridade baseada numa impiedosa vontade de poder.

A obra de Nietzsche, sob o estrito ponto de vista político e ideológico, foi a mais profunda e radical manifestação intelectual contra as grandes cartas e documentos que se posicionaram pela e igualdade e liberdade que vieram à luz na cultura ocidental, desde a Declaração dos direitos do homem e do cidadão da Revolução Francesa, passando pelo Manifesto comunista de Marx e Engels, até as leis sociais da sua época.

"Eu sou dinamite!"

O próprio Nietzsche nunca deixou de ter consciência de que suas posições, assumidamente radicais, teriam conseqüências terríveis nos anos vindouros. Que para ele seriam tomados por uma reação contra-revolucionária de dimensões espantosas. No Ecce Homo, por exemplo, a sua autobiografia publicada somente em 1908, oito anos após a sua morte, reconhece: "Conheço a minha sorte. Alguma vez estará unido ao meu nome algo de gigantesco - de uma crise como jamais haverá existido na terra, da mais profunda colisão de consciência, de uma decisão tomada, mediante um conjuro, contra tudo o que até esse momento se acreditou, exigiu, santificou. Eu não sou um homem, sou dinamite".

O CULTO AO GÊNIO

A teoria do surgimento futuro de um novo indivíduo que conjugasse o abandono dos valores do bem e do mal com um ateísmo engajado, foi, de certa forma, a evolução decorrente do culto ao gênio professado pelos primeiros românticos. A teoria do gênio vai ser retomada por Arthur Schopenhauer que irá expô-la num apêndice acrescentado ao seu O mundo como vontade e representação, na reedição de 1844, onde, num certo momento associa o homem genial à dimensão do Monte Blanc, que, do cimo das suas neves elevadas, contempla olimpicamente o resto da humanidade, mantendo-se fiel apenas " ao fim objetivo" ... "uma meta a ser atingida, mesmo que seja um equívoco, mesmo que seja um crime".

Thomas Carlyle, um reconhecido admirador do romantismo alemão, também se abeberou da idéia do gênio, adotando-a na sua concepção da história como sendo o palco exclusivo da ação do herói, do grande homem, que num só gesto ou ato altera o destino de milhões. Ela - a história - não passaria, pois, de um grande gesto heróico, onde a personalidade magnífica domina inteiramente o cenário da sua época. E, é claro, a figura do super-homem já estava esboçada anteriormente em Novalis, Heine e Goethe e, mais remotamente ainda, num dos diálogos de Platão.

A influência de Dostoievski

Uma das influencias mais significativas que Nietzsche recebeu foi-lhe inspirada pela leitura de Fédor Dostoievski (1821-1881). O escritor russo foi o primeiro, sob o enfoque cristão, a detectar o perigo da emergência do homem - idéia, ou do homem-deus enaltecido pelos românticos, desde os tempos de Fichte. A moderna sociedade liberal e progressista ao atacar os valores religiosos , sem se dar conta do perigo, abria uma brecha nos valores estabelecidos por onde aflorava o terrível homem-idéia, o indivíduo ateu e materialista que devotava sua vida a favor de uma causa, normalmente de inspiração niilista. Ele era um perigoso abnegado e um obcecado que rompia com os valores da sociedade, criando um universo ético próprio, só dele, totalmente afastado do cristianismo.

Nos romances de Dostoievski ele, este indivíduo perigoso, aparecerá no personagem do jovem estudante Raskolhnikov, em Crime e castigo; na do intelectual Ivan Karamazov de Os irmãos Karamozovi; e no príncipe Stavroguin no romance Os demônios. Todos eles são descritos como esses homens-idéia gerados pela modernidade que Dostoievski abominava e a quem ele reservou, em todos as novelas citadas, um final infeliz, na medida em que os considerava uns "perdidos de Deus".

Pois foi justamente este homem-idéia, esse ateu de novo tipo, que Dostoievski via com angústia e apreensão, que se tornou o arquétipo do novo homem moderno, é que foi o herói de Nietzsche. Ele, e somente ele, teria a coragem de doravante assumir a realidade de um mundo onde Deus estava morto. Mas isso estava longe de significar uma vida sem sentido como muitos moralistas e homens de fé acreditavam. Bem ao contrário! O terrível dito de advertência de Dostoievski de que "se Deus esta morto, tudo é permitido", que o russo entendia como uma chamamento à licença, à desordem e ao crime, Nietzsche entendeu como uma liberação. A possibilidade do indivíduo construir o seu destino não mais tolhido por qualquer regra, por qualquer impedimento, dilatava os horizontes para extensões impensadas.

A liderança do super-homem

E era exatamente nisso que estava o significado inaudito dos tempos vindouros. Devia-se aceitar na totalidade um mundo onde uma nova ordem deveria fatalmente imperar, na qual as novas regras, acima do bem e do mal, seriam impostas por essa figura exponencial que era o super-homem. (Übermensch), Este titã moderno, liberto de toda e qualquer ladainha cristã-humanitária, desprezaria qualquer sentimento de arrependimento, varrendo de dentro de si a fraqueza da piedade . Como Nietzsche deixou dito no "Humano, demasiado humano"(Menschliches, Allzumenschliches): "Se o homem consegue adquirir a convicção filosófica da necessidade absoluta de todas as ações e, ao mesmo tempo, da total irresponsabilidade destas, se consegue converter essa convicção em carne e em sangue , então desaparecerá também este resto de remorso de consciência".

O manifesto de Zaratustra

A singularidade do pensamento ideológico e filosófico de Nietzsche é que foi exposta por meio de um grande poema: Assim falou Zaratustra (Also spracht Zarathustra), iniciado em 1883. Nele o filósofo-poeta se apresenta atrás da roupagem do profeta iraniano Zaratustra ou Zoroastro (que viveu ao redor de 600 a.C. e que compôs o Zend-E-Avesta, dividido em cinco Gathas, ou canções proféticas), anunciando a boa nova da chegada do super-homem (após ter passar anos no alto de uma montanha, o profeta, exilado numa caverna, para onde havia se retirado a fim de meditar, tinha como companhia apenas uma águia e uma serpente).

Dali Zaratustra desce para vaticinar a vinda daquele que irá superar o homem: o super-homem. "Que é o macaco para o homem?" - pergunta o profeta àqueles a quem encontra na praça do mercado da cidade, e responde: "Um motivo de riso e dolorosa vergonha. E é justamente isso que o homem deverá ser para o super-homem: um motivo de riso ou de dolorosa vergonha". E, mais adiante, diz ao povo que "o homem é uma corda estendida entre o animal e o super-homem - uma corda sobre um abismo"... o homem é ao mesmo tempo "uma transição e um ocaso". Uma nova era, de superação de antigos tempos está para vir "... não existe Diabo, nem inferno", diz Zaratustra "a tua alma estará morta ainda mais depressa do que o teu corpo; portanto não receies nada!"

As metamorfoses do espírito

Os homens, segundo Zaratustra, teriam passado por três metamorfoses do espírito: foram primeiramente camelos, por carregarem em si as culpas do mundo, o sentimento do pecado ensinado pelos religiosos. Depois tornaram-se leões na medida em que se rebelaram contra esse passado de fadigas e culpas ignominiosas, onde seus instintos puros eram condenados como pecaminosos e, finalmente, assumiram a forma de crianças, na esperança de renascer numa nova moralidade, distinta da anterior, livres dos preceitos estabelecidos pelo bem e pelo mal.

O futuro é das águias

"Lembrem-se: Quanto mais alto planamos, menores vemos são as pessoas que não conseguem voar". - Nietzsche

Mas esse devir radioso, liberto da moral passada, não é um lugar reservado a todos "[...] Na árvore do futuro, construamos o nosso ninho; para nós os solitários, águias deverão trazer alimento em seus bicos! E, como fortes ventos, queremos viver acima deles, vizinhos das águias, vizinhos da neve, vizinhos do sol: assim vivem os ventos fortes. E tal como o vento forte, quero algum dia, soprar no meio deles [da canalha] e, com o meu espírito, tirar o respiro ao seu corpo: assim quer meu futuro". Zaratustra detesta "os pregadores da igualdade" que, segundo ele, não passam de " tarântulas e bem ocultas almas vingativas". Concluindo não querer "ser confundido com esse pregadores da igualdade. Porque, a mim, assim falava a justiça: os homens não são iguais".

O super-homem está no devir

O profeta não vê as características do super-homem entre os integrantes da antiga nobreza. Eles também já foram contaminados pelo liberalismo ao fazerem concessões políticas ao populacho (no caso, as primeiras leis sociais e de previdência aprovadas por Bismarck no IIº Reich alemão). Portanto, o super-homem ainda está por nascer e será identificado por sua integral e total devoção aos princípios exclusivista que defende, pelo seu caráter de aço!

Não se fará reconhecido por nenhum atributo genético, por nenhuma descendência aristocrática, mas sim pela consciência e poder que irá naturalmente transbordar da sua pétrea personalidade. A missão dele será partir "as velhas tábuas". Ele formará "uma nova nobreza, que se oponha a toda a plebe e a toda a tirania e que escreverá novamente em novas tábuas a palavra 'nobre".

Zaratustra esperançoso olha para a frente: "A minha águia está acordada e, como eu, presta homenagem ao sol. Estende suas aduncas garras de águia para a nova luz. Sois os animais certos para mim; eu vos amo. Mas faltam-me, ainda, os meus homens certos!"

Maquiavel, o teórico do amoralismo

Tal como Maquiavel encerrava O príncipe na expectativa de que surgisse na Itália dilacerada do seu tempo uma figura magnífica, despida de preconceitos, que lançasse mão de quaisquer recursos, mesmo que inescrupulosos, para unificar o país ameaçado pelos bárbaros, Nietzsche-Zaratustra esperava o mesmo na emergência de um super-homem.

Só que os temores da época de Nietzsche eram outros. Os novos bárbaros que assustavam o Ocidente que ele pretendia defender eram as idéias democráticas, o socialismo (que para ele eram sinônimos) o feminismo, o mau gosto vulgar da nascente cultura de massas, que devia ser exorcizado. Portanto, chegou mesmo a considerar - em nome da boa arte - a necessidade da escravidão. Toda a beleza apolínea da arquitetura grega antiga e sua imorredoura qualidade estética havia sido produto de uma sociedade escravista. O Pártenon poderia dever muito à iniciativa de Péricles e ao gênio de Fídias, mas também à chibata do feitor!

O PENSAMENTO DE NIETZSCHE

Friedrich Nietzsche estava se recuperando em Basiléia, na Suíça, de uma doença que o atacara na Guerra Franco-Prussiana de 1870 (ao prestar serviço de assistência aos feridos do exército alemão), quando chegou-lhe uma terrível notícia. Em março de 1871 a população de Paris havia se rebelado contra o governo derrotado. Pior, os operários estavam pondo fogo nos grandes prédios públicos e depredando as obras de arte espalhadas pela capital francesa, entre elas a bela Coluna de Vendôme. Era a Comuna de Paris que havia sido proclamada no dia 18 de março de 1871, que se tornaria um dos mais violentos levantes populares da Europa do século XIX.

Foi um choque para ele. Ainda estonteado pelas informações que recebera, refugiou-se na casa do historiador da cultura Jacob Burckhardt (1818-1897), o célebre helenista e historiador da cultura, pesquisador da Itália renascentista, que igualmente estava desconsolado. Acreditaram os dois amigos que toda a arte ocidental estava ameaçada. Séculos de beleza estavam em vias de ser totalmente devastados pelo vandalismo das massas parisienses revoltadas.

Os episódios da Comuna de Paris foram fundamentais para o acirramento das posições políticas de Nietzsche. Onde Karl Marx viu um momento de bravura popular, Nietzsche identificou o surgimento de uma nova barbárie que era preciso deter a qualquer custo. A Comuna será, pois, o ponto de partida para uma série de escritos que ele desenvolveu ao longo dos próximos vinte anos seguintes e que o colocaria ao lado dos antidemocratas, dos anti-socialistas, e contra todo e qualquer tipo de pregação que visasse a igualdade, tornando-o um apologista da distinção.

Nietzsche como Anticristo

O ataque direto que Nietzsche desencadeou contra o cristianismo radicalizou-se com o seu "O Anticristo" (Der Antichrist), mas foi inicialmente exposto na A genealogia da moral (Zur Genealogie der Moral), de 1887. Argumentou que a ética cristã era uma moral de escravos, de gente fraca e vil que havia, através do cristianismo, desvirilizado o espírito senhorial e dominante dos aristocratas. A origem desse processo, segundo Nietzsche, remontava à aos tempos da Palestina ocupada pela raça romana, raça de senhores. Os judeus, impotentes em poder livra-se deles, terminaram por aperfeiçoar a psicologia do ressentimento provocando uma inversão dos valores. Tudo aquilo que era "débil", "humilde", "medíocre", eles apresentaram como "bom", enquanto palavras tais como "nobreza', "honra", "valor", foram vistas como "mal". O resultado desse trabalho de sapador, feito por séculos de pregação cristã, foi o enfraquecimento das energias vivificantes da sociedade ocidental, especialmente das suas elites, na medida em que o "doentio moralismo ensinou o homem a envergonhar-se de todos os seus instintos".

A rebelião dos escravos

A rebelião dos escravos na moral se deu devido a sua impotência para destruir com a escravidão (ou o seu avalista, o poder romano). A nova religião - o cristianismo - tornou-se o instrumento deles para canalizar o seu ódio impotente, um "ódio que tinha a contentar-se com uma vingança imaginária". O produto desse ressentimento foi fazer com que os escravos, a "raça inferior e baixa", tornassem tudo aquilo que fosse digno e nobre em algo pecaminoso. Transformaram a prostração e a pobreza em virtude, e a abjeta covardia de dar o outro lado da face em caso de agressão, num ato sublime de perdão.

Via, portanto, o cristianismo como uma doença maligna que havia atacado o Império Romano, contribuindo para que ele sucumbisse vitimado por uma espécie de "febre das catacumbas". E, pior, "a mentalidade aristocrática foi minada até o mais profundo de si própria pela mentira da igualdade das almas; e se a crença na prerrogativa da maioria faz e fará revolução - é ao cristianismo que devemos sua difusão. São os juízos de valores cristãos que qualquer revolução vem transformar em sangue e crime. O cristianismo é uma insurreição do que rasteja contra o que tem elevação: O Evangelho dos pequenos tornado baixo".

A volta às energias aristocráticas

Portanto, os nossos conceitos de bem e de mal eram estratagemas dos derrotados, que fizeram a façanha de substituir os valores superiores da nobreza. Dessa forma retiraram dela, enternecendo-a com rogos de piedade, a seiva necessária para aplicar uma política de mão firme para conter esse moderno movimento neobárbaro, cuja carantonha havia emergido na Comuna de Paris de 1871. O socialismo não passava de um "cristianismo degenerado [...] o anarquista e o cristão vêm da mesma cepa [...]". Era preciso, pois, primeiro, expurgar de si esta moral de gente covarde. Retornar às fontes de energia aristocráticas, aplicar uma política da impiedade, onde somente o mais nobre e o mais viril fosse tomado em consideração.

"Deus está morto!" Foi sua mais célebre proclamação. Como conseqüência, os homens deveriam buscar valores que transcendessem a moral convencional divulgada pelo cristianismo; um retorno "à ordem de castas, à ordem hierárquica [...] para a conservação da sociedade, para que sejam possíveis tipos mais elevados, tipos superiores - a desigualdade dos direitos é a condição necessária para que haja direitos". Concluiu dizendo: "Quais são aqueles que mais odeio no meio da canalha dos nossos dias? A canalha socialista, os apóstolos [...] mirando o instinto, o prazer, o contentamento do trabalhador no seu pequeno mundo - que o tornam invejoso, que lhe ensinam a vingança [...] a injustiça nunca reside na desigualdade dos direitos, ela está na reivindicação de direitos iguais".

Nietzsche e a História

Nietzsche rompeu também com a relação entre a Filosofia e a História que havia sido estabelecida por Hegel, entendida esta última como uma crônica da racionalidade. Considerava que "o excesso de história" parecia "hostil e perigoso à vida", limitador da ação humana, inibindo-a. Devia-se ousar, avançar perigosamente para o ilimitado, porque a racionalização histórica levava o homem a "perder-se ou destruir seu instinto fazendo com que ele não ouse soltar o freio do 'animal divino' quando a sua inteligência vacila e o seu caminho passa por desertos. O indivíduo torna-se então timorato e hesitante e perde a confiança em si..." terminando por fazer com que "a extirpação dos instintos pela história transforma os homens em outras tantas sombras e abstrações."

Instinto contra a Razão

Nietzsche recolocou claramente o confronto outrora posto pelos românticos quando opunham os instintos - geralmente entendidos como uma manifestação da pureza e autenticidade humana - à razão, símbolo do utilitarismo cinzento e materialista.

Opunha-se, como conseqüência, à idéia de que os acontecimentos históricos ensinavam os homens a não repeti-los, defendendo a teoria do eterno retorno, de remota inspiração na filosofia pitagórica e na física estóica, que compreendia a aceitação de periódicas destruições do mundo pelo fogo e seu ressurgimento. Desta forma, não só tudo poderia acontecer novamente como tudo poderia ser tentado outra vez.

Em busca do super-homem

A idéia da necessidade da formação de uma nova elite - não contaminada pelo cristianismo e pelo liberalismo - e que ao mesmo tempo os transcendesse, acometeu Nietzsche desde muito cedo. Pode-se dizer que já pensava assim nos seus tempo do internato em Pforta. Já naquele tempo mostrou-se obcecado pela formação de uma seleta falange intelectual responsável pela transmutação de todos os valores, cuja obrigação e dever maior era a proteção de uma cultura superior ameaçada pela vulgaridade democrática.

NIETZSCHE FALAVA ASSIM

As convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras

Torna-te quem tu és.

A objeção, o desvio, a desconfiança alegre, a vontade de troçar são sinais de saúde: tudo o que é absoluto pertence à patologia.

Aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não tornar-se também um monstro. Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você.

E se tu olhares, durante muito tempo, para um abismo, o abismo também olha para dentro de ti.

Um outro sinal distintivo dos teólogos é a sua incapacidade filológica. Entendo aqui por filologia (...) a arte de bem ler – de saber distinguir os factos, sem estar a falseá-los por interpretações, sem perder, no desejo de compreender, a precaução, a paciência e a finesse.(O Anticristo).

Existo, logo penso.

Os leitores extraem dos livros,consoante o seu carácter,a exemplo da abelha ou da aranha que,do suco das flores retiram,uma o mel,a outra o seu veneno.


Toda a arte e toda a filosofia podem ser consideradas como remédios da vida, ajudantes do seu crescimento ou bálsamo dos combates: postulam sempre sofrimento e sofredores.

A vantagem de ter péssima memória é divertir-se, muitas vezes, com as mesmas coisas boas como se fosse a primeira vez.

Você vive hoje uma vida que gostaria de viver por toda a eternidade?

"Odeio as almas estreitas, sem bálsamo e sem veneno, feitas sem nada de bondade e sem nada de maldade."

O gosto de minha morte na boca deu-me perspectiva e coragem. O importante é a coragem de ser eu mesmo.

"A fé é ignorar tudo aquilo que é verdade."

Há homens que já nascem póstumos.

Aquilo que não me destrói fortalece-me

Se minhas loucuras tivessem explicações, não seriam loucuras.

Um político divide os seres humanos em duas classes: instrumentos e inimigos.

E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música.

Não há nada que deprima mais o ser humano (mais depressa) do que a paixão do ressentimento.

NIETZSCHE DIZIA ASSIM

A vaidade dos outros só vai contra o nosso gosto quando vai contra a nossa vaidade.

É terrível morrer de sede no mar. Porque haveis então de salgar a vossa verdade de modo a que não - mate já a sede?.

Nos indivíduos, a loucura é algo raro - mas nos grupos, nos partidos, nos povos, nas épocas, é regra.

«O nosso próximo não é o nosso vizinho, mas o vizinho deste» - assim pensam todos os povos.

As próprias mulheres, no fundo de toda a sua vaidade pessoal, têm sempre um desprezo impessoal - pela mulher.

O homem precisa daquilo que em si há de pior se pretende alcançar o que nele existe de melhor.

Se não se tem um bom pai, é preciso arranjar um.

O amor por um só é uma barbaridade: porque se exerce à custa de todos os outros. O mesmo quanto ao amor por Deus.

Somos muito injustos com Deus. Nem sequer Lhe permitimos pecar.

A grandeza do homem consiste em que ele é uma ponte e não um fim; o que nos pode agradar no homem é ele ser transição e queda.

A ideia do suicídio é uma grande consolação: ajuda a suportar muitas noites más.

Quem atinge o seu ideal, ultrapassa-o precisamente por isso.

Sem a música, a vida seria um erro.

O homem é uma corda estendida entre o animal e o Super-homem, uma corda por cima de um abismo.

Em certas pessoas, o alegrar-se com um elogio é apenas uma delicadeza do coração - e precisamente o contrário de uma vaidade do espírito.

A sensualidade ultrapassa muitas vezes o crescimento do amor, de forma que a raiz permanece fraca e arranca-se facilmente.

Os advogados de um criminoso só raras vezes são suficientemente artistas para aproveitar em favor do réu a terrível beleza do seu ato.

Onde amor e ódio não concorrem ao jogo, o jogo da mulher torna-se medíocre.

Apenas devia ser possuidor quem tem espírito: não sendo assim, a fortuna é um perigo público.

O sentido do trágico aumenta e diminui com a sensualidade.

O sucesso tem sido sempre um grande mentiroso.

Em homens duros a intimidade é questão de pudor - e algo de precioso.

É difícil conviver com as pessoas porque calar é muito difícil.

A esperança é o derradeiro mal; é o pior dos males, porquanto prolonga o tormento.

A recompensa final dos mortos é não morrer nunca mais.

ASSIM DIZIA NIETZSCHE

Deus está morto: mas, considerando o estado em que se encontra a espécie humana,
talvez ainda por um milénio existirão grutas em que se mostrará a sua sombra.

Comparando no seu conjunto homem e mulher pode dizer-se: a mulher não teria engenho para se enfeitar se não tivesse o instinto do papel «secundário» que desempenha.

Para a mulher, o homem é um meio: o objetivo é sempre o filho.

Há uma inocência na admiração: é a daquele a quem ainda não
passou pela cabeça que também ele poderia um dia ser admirado.

Como? Um grande homem? Eu apenas vejo o actor representando o seu próprio ideal.

O homem que vê mal vê sempre menos do que aquilo que há para ver; o homem que ouve mal ouve sempre algo mais do que aquilo que há para ouvir.

O esforço dos filósofos tende a compreender o que os contemporâneos se contentam em viver.

Não há fenómenos morais, mas apenas uma interpretação moral de fenômenos...

As convicções são inimigos da verdade bem mais perigosos que as mentiras.

Quando se amarra bem o próprio coração e se faz dele um prisioneiro, pode-se permitir ao próprio espírito muitas liberdades.

Até Deus tem um inferno: é o seu amor pelos homens.

Os erros de grandes homens... são mais fecundos que as verdades de pequenos.

Um procura um parteiro para os seus pensamentos, outro alguém a quem possa ajudar: é assim que nasce uma boa conversa.

Quanto mais abstracta for a verdade que queres ensinar, mais tens que seduzir os
sentimentos a seu favor.

A maturidade do homem consiste em haver reencontrado a seriedade que tinha no jogo quando era criança.

A música oferece às paixões o meio de obter prazer delas.

Quem não sabe encontrar o caminho para o «seu» ideal vive de um modo mais leviano e insolente que o homem sem ideal.

Perante nós mesmo todos fingimos ser mais ingénuos do que somos: é deste modo que descansamos dos nossos semelhantes.

Quem se despreza a si próprio não deixa mesmo assim de se respeitar como desprezador.

As paisagens insignificantes existem para os grandes paisagistas; as paisagens raras e notáveis são para os pequenos.

No elogio há mais impertinência do que na censura.

É verdade que se mente com a boca; mas careta que se faz ao mesmo tempo diz, apesar de tudo, a verdade.

Fazer grandes coisas é difícil; mas comandar grandes coisas é ainda mais difícil.

O filósofo, como o entendo, é um explosivo terrível na presença do qual tudo está em perigo.

Quem só tem o espírito da história não compreendeu a lição da vida e tem sempre de retomá-la. É em ti mesmo que se coloca o enigma da existência: ninguém o pode resolver senão tu!.